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25
Out

Entrevista com Maria Emília de Azevedo

Entrevista publicada originalmente no site do FAM

A cineasta Maria Emília de Azevedo faz a estreia de seu novo curta-metragem Mulher Azul (La Femme Bleue) durante o FAM. A ficção, convidada da Mostra de Curtas Mercosul será exibida no dia 28, a partir das 19h, no auditório Garapuvu.

Diretora de Alva Paixão, Um Tiro na Asa, A Coroa, entre outros, Mulher Azul é o sétimo curta de Maria Emília. É um filme adaptado do texto homônimo de Renato Tapado e mostra M., uma mulher que se refugia em uma casa à beira da água para encontrar as respostas que procura.

Nesta entrevista, a diretora fala da experiência de produzir um trabalho essencialmente poético, sobre a transposição do texto de Tapado e sobre como foi rodar na região francesa de Provence. 

Pergunta - Mulher Azul é um filme que aposta na poesia, no lirismo? Como a narrativa se desenrola e se sustenta?

Maria Emília de Azevedo - Realmente o filme Mulher Azul aposta na poesia, no lirismo enfaticamente. Sabemos que a poética integra um filme ou outra manifestação artística mas, este filme é um enfrentamento com a poesia. A narrativa é muito simples: uma mulher M. se isola em algum lugar e passa a escrever o que sente naquele momento e reflete sua vida. Nada acontece de extraordinário. Não sabemos nada a seu respeito. Alguns indícios nada mais: um telefonema, fotos..É mais um filme de sentidos e não de narrativa.

Pergunta - Vocês escolheram filmar na Provence? O que trouxe ao filme, ao roteiro e a história a locação?

Maria Emília - A Provence aconteceu no meio do processo de produção. Originalmente a narrativa indicava Brasil e Buenos Aires. Em Buenos Aires cenas em câmera subjetiva dos cafés à noite. Este tratamento era mais um retorno da personagem M. que, morava na Argentina e retornava ao Brasil para se isolar e questionar seu momento de vida. Com a possibilidade de rodar na Provence, a narrativa foi alterada. M. se isola em algum lugar que não conhece e escreve, distante de seu país e seus conhecidos - os quais não sabemos qual é e quem são.

Pergunta - Vocês filmaram justamente na cidade onde Van Gogh pintou quadros famosos pela luz amarelada, mediterrânea? Essa cor, de alguma forma, está presente em Mulher Azul?

Maria Emília - É inevitável não ter a cor e luz mediterrânea que Van Gogh imprime em sua obra na fotografia do filme. E vemos ainda, em algumas cenas, o "mistral" (nome do vento da Provence), que Van Gogh também retratou em algumas de suas obras. A luz é impressionante e tinge tudo e todos de dourado. Há uma cena que temos esta luz intensa: em uma varanda no centro de Arles quando M. aborda o "homem". Revendo o filme acho que ele tem mais a delicadeza da luz de Cézanne do que a força do "sol" de Van Gogh. Também me inspirei em Amadeo Modigliani. Quando estávamos no trem indo para Arles - sentada ao lado de Charles (Cesconetto – diretor de fotografia), conversando sobre o filme - Patricia (Teotônio, a atriz do filme) estava sentada no banco de frente para nós, eu a olhei e imediatamente falei a Charles: ela tem a mesma expressão e forma do rosto que Modigliani retrata suas mulheres! Então durante as cenas pedi a ela que amarasse o cabelo e fizemos retratos. Na verdade o filme é todo de retratos - câmera fixa, uma vez que a intensidade da vida está dentro da personagem e não no que acontece com ela.

Pergunta - Mulher Azul foi feita com uma equipe mínima, como a de um documentário, como você comentou. O que isso contribuiu ao trabalho?

Maria Emília - O filme é intimista e eu sempre achei que se tivéssemos uma equipe com o número de técnicos que normalmente configura uma produção poderíamos perder a personagem. Pensei em reduzir consideravelmente o número de pessoas envolvidas e fazer de algumas áreas o laboratório da atriz: maquiagem, figurino, arte. Minha intenção inicial foi reforçada quando Charles Cesconetto nos propôs a rodar Mulher Azul na França. Neste momento havia ainda mais uma condição de produção, o custo e deslocamento nos fez reduzir radicalmente a equipe. Então rodamos o filme em cinco pessoas: eu, a atriz Patricia Teotônio, Zeca Nunes Pires (produtor executivo e técnico de som direto), Charles Cesconetto (diretor de fotografia e produtor na França), Marcelo Esteves (roteirista e assistente de direção, produção e arte) e Valerie Beneyt (diretora de produção e still). Com uma equipe tão pequena entramos num intenso intimismo e isto colaborou muito para a preparação da personagem. Foram momentos de total realização no set. Até porque somos amigos e companheiros de trabalho de longa data, entendíamos imediatamente as necessidades do filme e do momento, necessidades sutis e delicadas. A configuração tão compacta da equipe possibilitou também nossa vivência como personagem, explico, saíamos pelos lugares em uma van descobrindo junto com Patricia os lugares por onde a personagem transitaria. Isto aconteceu também na casa de M.! Tivemos a participação na preparação e pré-produção do filme de Nira Pomar (produtora no Brasil e assistente da produção executiva) e Ana Terra Vignes (figurinista). Na pós-produção integram a equipe: Léo Gomes (designer de som), Tiago Santos (montador), Cássio Moura (música original) e Pedro MC (designer).

Pergunta - Como foi adaptar um roteiro, baseado no texto homônimo de Renato Tapado, que é escrito como um diário? (o que é mais surpreendente que o texto é tão feminino, e escrito e adaptado por dois homens – Tapado e Marcelo Esteves, respectivamente.)

Maria Emília - É realmente surpreendente que dois homens tenham uma visão tão feminina, principalmente o Renato Tapado criador do texto, mas, por isto eles são talentosos em transitar artisticamente nos universos masculino e feminino. O texto de Renato é belo, delicado e forte ao mesmo tempo e Marcelo o adaptou brilhantemente. Inicialmente estávamos mais presos à condição narrativa da obra de Renato, mas e, principalmente, em função da nossa filmagem na França revimos a narrativa, porém os textos são os mesmos do livro. O que fizemos foi juntar alguns textos e retirar parte de outros. Fizemos uma seleção porque não havia como incluir todos. Modulamos estes textos de acordo com o estado emocional da personagem. Considero que uma obra adaptada serve para instigar o espectador a ler a obra original. Espero que o filme Mulher Azul faça isto, levar o público a ler a obra de Renato Tapado.